Mais um ano que se passa e eu escapei desse ritual humano que é o amigo secreto. Se estou certo, não participo disso desde o século XX. Acredito que o último que participei, obviamente contrariado, foi por volta de 1995.

E me orgulho disso. Muito. E no que depender de mim, será assim até o fim da minha vida. Porque odeio amigo secreto.

Claro que por muitas vezes sai como grosso, estúpido, do contra, entre outros adjetivos utilizados com aqueles que batem de frente com as regras sociais. Vejam as rugas de preocupação na minha cara. Todas as vezes avisei educadamente que não iria participar de tal atividade porque não me sentia confortável nela, sem considerar o quão estúpida ela é, mas ainda assim tentavam forçar minha presença. Isso se classifica como abuso, não?

A ideias iniciais dessa atividade eram promover a aproximação entre colegas de trabalho e economizar. Todos os colegas participariam e apenas um presente seria dado por pessoa. Olha que lindo. Só que não. Afinal está sendo forçada uma confraternização não-natural entre as pessoas. Existem outras formas diversas dos humanos se aproximarem naturalmente e, mais importante, há alguns que preferem se manter “no seu canto” seja devido a uma timidez, a serem reservados, ou apenas porque querem fazer seu trabalho e pronto. Ou são anti-sociais e tem todo o direito de ser.

Nem sempre toleramos o colega de trabalho além do necessário para que o serviço seja feito. Muitas vezes aguentamos mesmo porque os boletos precisam ser pagos.

Ser “obrigado” socialmente a participar de uma atividade assim é cruel. Existem pessoas tímidas, existem pessoas que não queremos presentear ora. Se eu quero presentear alguém, apenas vou e compro um presente e pronto. Soa, e é natural, além de honesto. Se há alguém que não vou com a cara, não presenteio e pronto. Tão simples.

Mas chega o final do ano e essa movimentação toda começa. Quantos não odeiam isso e apenas participam forçadamente sendo abusados psicologicamente todo ano até mais de uma vez pois tal atividade não acontece somente no trabalho. Muitas vezes existe na família, entre colegas de um curso, vizinhos, etc.

O fato de alguém não querer participar, não significa que a pessoa deseja algo de ruim. E se alguém acha que apenas um presente é o que comprova o quanto alguém se importa com você, já dá pra ver a noção de quão vazio tal ser é por não ser capaz de enxergar nos outros detalhes uma demonstração de afeto, admiração ou respeito.

Para uma época do ano onde se prega tanto o amor, respeito e gratidão, forçar alguém a participar de uma atividade com a qual não se sente confortável só demonstra o quão hipócrita é o final do ano.